Um decágono emerge no polo sul de Saturno
Imagens do Hubble revelaram uma onda atmosférica de dez lados, com segmentos de mais de 16.700 quilômetros. Diferentemente do hexágono boreal, ela deriva para leste e ainda parece estar mudando.

Saturno deixou de ser o planeta de um único polígono meteorológico. Imagens do Telescópio Espacial Hubble revelaram uma faixa ondulante com dez lados ao redor do polo sul, primeira estrutura regular desse porte observada no hemisfério austral do planeta. O decágono se estende por diferentes altitudes da atmosfera e apresenta um comportamento distinto do célebre hexágono que circunda o polo norte há mais de quatro décadas.
Agustín Sánchez-Lavega e colaboradores perceberam a ondulação primeiro em imagens terrestres enviadas por astrônomos amadores em 2024. Registros de 2025 tornaram o desenho mais nítido; ao reexaminar o arquivo do Hubble, a equipe encontrou a estrutura, ainda discreta, em 2023. A sonda Cassini acompanhou Saturno entre 2004 e 2017 sem detectar uma formação duradoura semelhante no sul. Como o polo ficou inclinado para longe da Terra a partir de 2012 e só voltou a aparecer em 2023, os dados delimitam, mas não datam, o nascimento do decágono.
A escala é planetária: cada segmento já ultrapassa 16.700 quilômetros, mais que o diâmetro da Terra. Enquanto o hexágono do norte permanece quase fixo em longitude, a onda austral migra para leste a aproximadamente dez quilômetros por hora. Observações do Hubble em diferentes comprimentos de onda, que enxergam camadas atmosféricas distintas, repetiram o contorno em várias altitudes. Isso favorece a interpretação de uma onda associada a uma corrente de jato, e não apenas de nuvens que casualmente desenharam ângulos.
A comparação temporal também separa os dois polos. O hexágono boreal foi registrado pelas sondas Voyager em 1980 e 1981 e reapareceu em todas as observações posteriores. O decágono, ao contrário, parece mais sinuoso e variável; sua definição aumentou entre as imagens mais antigas e as recentes. O programa OPAL, que fotografa anualmente as atmosferas dos planetas externos, permitiu reconhecer essa mudança porque forneceu uma série de observações, em vez de um retrato isolado.
Nenhum mecanismo foi demonstrado para explicar por que a corrente ganhou exatamente dez lados. Os autores consideram que perturbações de uma tempestade próxima possam ter desencadeado a ondulação, mas essa é uma hipótese a ser testada com simulações. Saturno é o único planeta conhecido por apresentar correntes de jato com contornos poligonais regulares; Júpiter tem ciclones organizados em polígonos nos polos, uma arquitetura atmosférica relacionada apenas por comparação, não por mecanismo já estabelecido.
A duração do novo desenho é a pergunta decisiva. O decágono pode estabilizar-se como o hexágono do norte ou desaparecer conforme evoluem a estação e as tempestades austrais. Novas observações do Hubble, do telescópio James Webb e de instrumentos terrestres deverão medir sua velocidade, seu perfil vertical e a interação com os vórtices vizinhos. Se a forma persistir, Saturno oferecerá dois experimentos naturais diferentes sobre como rotação rápida, jatos e turbulência organizam uma atmosfera gigante.
Pontos essenciais
- O Hubble confirmou uma onda de dez lados ao redor do polo sul de Saturno, visível em registros desde 2023.
- Cada lado supera 16.700 quilômetros e o padrão deriva para leste a cerca de dez quilômetros por hora.
- A formação parece recente e variável; sua origem, estabilidade e duração ainda não foram determinadas.

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